Poemas dos becos de Goiás e estórias mais

Poemas dos becos de Goiás e estórias mais

Sinopse

Quando Cora Coralina estreou, em 1965, com os Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais, a crítica não percebeu (só perceberia mais tarde) que ali nascia uma poeta original, de raízes muito profundas na alma popular, com uma sabedoria dosada de ironia, de alguém que muito viveu e sofreu, mas de expressão tão suave, com tamanho frescor que parecia vir de uma jovem. Era e não era verdade, se ponderarmos que a alma não tem idade e os sentimentos não envelhecem. Cronologicamente, a autora era uma respeitável senhora de 75 anos (bela idade para uma estreia poética), vinda do interior de Goiás. O público sentiu de imediato o que os críticos não perceberam: a alta tensão poética daquela poesia, seu poder de comunicabilidade, a simplicidade de expressão, o amor pelo semelhante, a comoção humana que fazia de cada leitor um passante pelos becos cheios de tradições de Goiás. Só mais tarde, com o reconhecimento de grandes figuras da literatura brasileira, como Carlos Drummond de Andrade, alguns críticos começaram a rasgar seda pela poeta. Ainda bem. Preconceitos postos de lado, descobriram nela uma irmã - em certo sentido mais suave, em outro mais áspera - de Gabriela Mistral e Rosalia de Castro. Irmã, sim, mas com uma personalidade muito própria e forte, quase sem influências literárias, mas com alguma coisa de franciscana. A Oração do Milho não parece escrita por Francisco de Assis? Quem, excetuados os corações de pedra, não se comove com esse poema, um dos mais belos já escritos no Brasil? Senhor, nada valho./ Sou a planta humilde dos quintais pequenos e das lavouras pobres./ Meu grão, perdido por acaso,/ nasce e cresce na terra descuidada./ Ponho folhas e haste,e se me ajudardes, Senhor,/ mesmo planta de acaso, solitária,/ dou espigas e devolvo em muitos grãos/ o grão perdido inicial, salvo por milagre,/ que a terra fecundou.

Autor

Cora Coralina é o pseudônimo de Ana Lins dos Guimarães Peixoto (1889-1985), que nasceu na cidade de Goiás, antiga Villa Boa de Goyaz, em 1889. Filha de Francisco de Paula Lins dos Guimarães Peixoto, desembargador nomeado por D. Pedro II, e de Jacinta Luísa do Couto Brandão, Ana nasceu e foi criada às margens do rio Vermelho, em casa comprada por sua família no século XIX, quando seu avô ainda era uma criança. Estima-se que essa casa foi construída em meados do século XVIII, sendo uma das primeiras construções da antiga Vila Boa de Goiás. Aos 15 anos de idade, Ana, devido à repressão familiar, vira Cora, derivativo de coração. Coralina veio depois, como uma soma de sonoridade e tradução literária. Foi uma poetista e contista brasileira de prestígio, tornando-se um dos marcos da nossa literatura . A autora iniciou sua carreira literária aos 14 anos com o conto "Tragédia na Roça" publicado no "Anuário Histórico e Geográfico do Estado de Goiás". Casou-se com o advogado Cantídio Tolentino de Figueiredo Brêtas e teve seis filhos. O casamento a afastou de Goiás por 45 anos. Ao voltar às suas origens, viúva, iniciou uma nova atividade, a de doceira. Além de fazer seus doces, nas horas vagas ou entre panelas e fogão, Aninha, como também era chamada, escreveu a maioria de seus versos. Publicou o seu primeiro livro aos 76 anos de idade e despontou na literatura brasileira como uma de suas maiores expressões na poesia moderna. Em 1982 – mesmo tendo estudado somente até o equivalente ao 2º ano do Ensino Fundamental – recebeu o título de doutora Honoris Causa pela Universidade Federal de Goiás e o Prêmio Intelectual do Ano, sendo, então, a primeira mulher a receber o troféu Juca Pato. No ano seguinte foi reconhecida como Símbolo Brasileiro do Ano Internacional da Mulher Trabalhadora pela FAO. Morreu em Goiânia, aos 95 anos, em 1985.